por Ricardo Ishmael*

Ave, bode!
Lá, no sertão onde nasci, ele é o rei. Sua Majestade impera nos tabuleiros e barrocas de Serrinha, campeando livre, lépido e serelepe entre pés de anjico e cajueiros. A corte real é numerosa: cabras, carneiros e ovelhas, sem falar nos cabritos e cabritinhas nervosos, que zaneiam pra lá e pra cá, devorando toda sorte de capim que encontram pela frente. Sempre tive um certo respeito por ele, o bode.Aqueles chifres tortos, a barbicha despencando do queixo, as orelhas compridas e os olhões amarelos, redondos, vidrados, me faziam pensar no porte real daquele bicho. Até o budum inspirava respeito. Por isso, nunca gostei da carne de bode. Mas os anos eram difíceis. O boi, pela hora da morte, só de caju em caju dava o ar da graça. A galinha de quintal tinha lá suas garantias. Afinal, do seu (do dela!) generoso fiofó, vinham os ovos para o cuscuz e a omelete. Lá, no sertão onde nasci, ninguém ousava rejeitar comida. Súdita ou majestosa, comida era sempre comida e, assim sendo, tínhamos que comê-la. E o cardápio não variava.
Quase nunca variava! Mas a criatividade era farta. Na mesa, vi todas as possibilidades de bode imagináveis: frito no óleo, refogado com abóbora e batatas, desfiado e moqueado. Os miúdos viravam viuvinha, meninico, buchada. Um festival de iguarias à moda sertaneja. Imaginava já ter visto todas as combinações humanamente possíveis quando, há alguns dias, me deparo diante do que me pareceu surreal: “bode ao leite de côco”. Não mais no sertão onde nasci, mas aqui, nestas terras da capital. E noutra situação: não diante da mesa, na hora do almoço, fechando os olhos para mordiscar os pedacinhos da carne assada, mas em frente à câmera, trabalhando. “Bode ao leite de côco”, dizia minha pauta. E lá fui eu mostrar a receita, passo a passo, para uma reportagem sobre “pratos inusitados”. Não preciso dizer que, naquele exato instante, me veio à lembrança os tempos do bode frito, ensopado, moqueado… Receita pronta, provei, meio nervoso. “O sabor é diferente. Vale a pena experimentar”. Foi o que disse. Foi o que ousei dizer, apenas. Não gosto de bode e não gostei do prato. Sabendo disso, meus colegas de trabalho, ali presentes, me acusaram de não estar sendo “honesto” com meus telespectadores.
“Ora, como não?” - bradei. “Fui e sou honesto. Estaria mentindo se tivesse dito que o prato é delicioso”. Minha defesa, entretando, não os convenceu. Continuaram me “acusando” de ter “passado a idéia de que o bode é uma delícia”. Em casa, como de costume, parei par refletir. Pensei, pensei, pensei. Eis que o bendito bode me lançou, de volta, à seara da relexão sobre ética no jornalismo. Arre! O que é ética? Recordei-me dos tempos de faculdade, das discussões intermináveis, dos calorosos embates sobre os limites da atividade jornalística e do papel político-social de cada um de nós, sujeitos da informação.
Em casa, distante alguns anos desse debate, percebi, feliz da vida, que ainda estou atento a ele. E como não estaria? Ética não é verbete de dicionário Não se decora. Não está ao alcande da mão, no balcão da farmácia ou na prateleira do mercado. Ética descobre-se, entende-se. Concebe-se no árduo exercício da reflexão sobre a tarefa de noticiar, informar, respeitando o fato e o telespectador. Concluí que teria faltado com a ética se tivesse elogiado o bode ao leite de côco. O que não fiz. Faltar com a ética é faltar com a verdade. É ser desonesto. E lá no sertão onde nasci, bode é rei e verdade é sempre verdade.
*Ricardo é jornalista da Rede Bahia, formado na UESB e colaborador do Núcleo de Notícias






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1 comentário ↓
1 RGS // 14 de Abril de 2008 às 16:58
A velha frase- gosto não se discute!.