Lembranças de meu pai

6 de Agosto de 2008, às 19:12h

Paulo Ludovico

pl.jpgNum repente de saudosismo, talvez embalado pela proximidade do dia dos pais, resolvi transitar lá num passado de meu existir.

Lembrei-me de meu velho e saudoso pai, que nos deixou no início da década de 80, eu acabara de completar 26 anos de idade e meu pai, 73. Acho, até, que ele poderia ter acompanhado a gente mais uma década de anos, quem sabe? Mas li, não me lembro onde, que “não cai uma folha sem que lhe seja chegado o momento”.

Meu pai não gostava de guiar automóvel. Num tempo que ficou bem pra trás, ele já foi… motorista. Em meados dos anos 60, pegou num volante pela última vez. Chego a dizer que ele “desaprendeu” a dirigir (se é que pode). Esse foi um fato que marcou muito meu relacionamento com ele, pois passei (com a ajuda de minha mãe, dona Dalva Flores) a ser o seu motorista. Viajávamos, em quase todos os finais de semana, para uma fazenda que tínhamos em Itapetinga. Vinte e cinco alqueires de terra. Nas idas e vindas eu e meu pai, conversávamos muito: sobre a vida, sobre nós e sobre o que seria do nosso futuro. O meu próprio e o de outros três irmãos que compunham a nossa família. Além da forte amizade que fortificava a cada viagem, foram grandes lições, vindas do velho Ludovico (esse era o nome de meu pai), que aplico em meu viver, até os dias atuais, mesmo depois de 25 anos de sua morte.

Numa de nossas viagens àquela fazenda em Itapetinga, encontramos muitos problemas. Uma vaca ou cavalo que morrera vítima de picada de cobra, algumas reses doentes, que careciam de um tratamento mais cuidadoso, uma cerca que precisava ser restaurada, a falta de chuva que fazia rarear o pasto, mangas que precisavam ser roçadas, etc. Meu pai, com a paciência que marcou toda a sua vida, dava soluções às questões. Essa viagem foi mais demorada, posto ter acontecido num período de férias escolares. Cinco dias na fazenda, e eu era só ansiedade. Queria voltar logo pra casa, afinal havia deixado uma namorada em Conquista. Meu pai, percebendo minha inquietação, disse com um sorriso meio que enigmático: “Sei por que você quer voltar logo. Tenha calma, essas folgas no amor, além de esquentarem o namoro, permitem que vocês pensem mais no que querem da vida a dois”. E pensamos. Hoje, eu e aquela namorada acabamos de completar 30 anos de casados.

Outro dia, um sobrinho meu despediu-se da mãe, dizendo que dormiria na casa da namorada. E foi. Lá, até já existe o lugar dos dois “dormirem”. Diante da situação, perguntei-me: O que o velho Ludovico diria a respeito? Enquanto esperava a resposta (certamente, armazenada na minha própria memória), descobri que esse comportamento é mais comum do que imaginava. Eu, mais novo que meu pai quase meio século, não entendo esse viver da juventude. Não que eu seja contra o amor entre um homem e uma mulher. Mas esse viver junto só deveria existir entre criaturas amadurecidas que pudessem assumir as possíveis conseqüências desse amor. Ele? Meu pai? Ah! Acharia logo uma explicação: “Meu filho, viver é adaptar-se ao novo”. Fecho os olhos e ouço suas palavras, com aquele jeito próprio de aconselhar: “Você pode sempre mudar conceitos e pontos de vista, afinal de contas, essa é a dinâmica da evolução. O que não se deve mudar é a firmeza de caráter e a honradez. Essas, meu filho, são imutáveis e inegociáveis”.

E vou, nessas minhas digressões, pensando nas conversas com meu pai. Há cerca de um ano e meio, nasceu a filha de meu primeiro filho. Sou avô de uma menina linda (não é “corujismo”, não. Ela é linda, mesmo). Mais uma vez, vem, à lembrança, o meu velho, vinte e oito anos atrás, quando nasceu o pai dessa minha primeira (e única) neta, ele, o primeiro neto de meu pai. Só agora, passado todo esse tempo, entendo o amor que meu pai dedicou ao meu primeiro filho. Eu, casado de pouco, morava em Salvador. Meu pai adoeceu quando retornei à capital do Estado, levando comigo o neto dele. Mais uma vez, recordo-me de uma de suas sábias lições. Ele dizia: “Paulo, o homem só aprende a ser filho quando é pai e só aprende a ser pai, quando é avô”.

Meu pai era o que se podia chamar de homem de bem e de palavra, coisa que, hoje em dia, vem se tornando rara. A malandragem, que naquela época era mais comum nos morros, nas favelas e nos botequins, passou aos salões, aos palácios e as bairros chiques. Chico Buarque vaticinou numa certa feita, em uma de suas músicas: “tem malandro oficial, candidato a malandro federal”. E não deu outra: Delúbios, Dirceus, Sílvios Pereiras, Renans Calheiros (esse último, pra meu pai, seria a decepção total, tal qual ele, é também nascido nas Alagoas), cartões corporativos, religiosos que roubam e cuecas que são utilizadas para guardar dinheiro. Pais e filhos matando-se, uns aos outros.

Aprendi muitas coisas nesses meus 50 anos de vida. Uma delas é que meu pai, com seus conselhos e seus dizeres, continua vivo em meu dia-a-dia. Relembro sempre das coisas mais importantes que ele me falava. Sempre que tenho de tomar uma decisão, penso: O que meu pai faria ou me diria num momento desses? Nunca me arrependi por agir assim. Com o velho Ludovico, aprendi, também, que devemos ser comedidos nas comemorações pelas conquistas e perseverantes na resolução dos problemas. Nesses casos ele sempre disse: “Cuidado! Não há bem que dure, nem mal que não se acabe”.

Com meu pai, experimentei o que era o perdão. Certa vez, em casa, num desses rompantes, comuns a quem caminhava pelos 15 anos de idade, depois de ter um pedido negado, disse a ele coisas que, até hoje, me arrependo. Não que fossem tão graves, mas por ele não as ter merecido, pois sempre, em outras oportunidades, ter satisfeito a maioria de meus quereres. Como desejo voltar no tempo, para prender aquelas palavras na garganta. Minha mãe, percebendo aquele mal estar entre eu e meu pai, que já durava dois dias, sugeriu-me que fosse pedir desculpas a ele. Assim o fiz. Logo depois do almoço, entrei no quarto, onde ele “costumava tirar um cochilo”, dizia (que saudade, meu velho!), e com a voz embargada pela emoção (como a que sinto, ao escrever essas palavras), disse-lhe: Pai, quero que você me perdoe… Nem cheguei a completar o que havia preparado para dizer-lhe. Não sei se simplesmente não consegui ou, então, se fui interrompido pelas palavras dele, que até hoje ecoam em minhas lembranças: “Meu filho, você é que deve me perdoar. Como pude não permitir que você viajasse com seus colegas?”. Pouco depois desse diálogo entre eu e meu pai, minha mãe recebe, por telefone, a notícia da morte de um daqueles meus “colegas”, conseqüência de um acidente, acontecido na volta daquela mesma viagem que meu pai, dois dias antes, havia me negado. Premonição ou coisas de pai?

Hoje, ainda que não tenha a sua presença física, agradeço sempre à vida pela oportunidade de ter desfrutado, 26 anos dos 50 que já vivi, das lições deixadas por aquele amigo que tive a extrema honra e felicidade de chamar de PAI.
Que Deus o abençoe, onde você estiver, querido amigo…


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2 comentários ↓

  • 1 Alberto Oliveira // 7 de Agosto de 2008 às 11:11

    Muito bom texto e apropriadas reflexões, não só para esta data mas como lição de vida para todos os momentos em que estivermos com, ou nos lembrarmos dos nossos pais.

  • 2 Juliana Flores // 7 de Agosto de 2008 às 15:41

    Fiquei emocionada ao ler o texto de Paulo sobre seu pai. Como faço parte da família conheci de perto a sabedoria de Vico, como era chamado carinhosamente por todos nós. Aliás sabedoria de vida tem faltado nos dias atuais - família - tem que ser resgatada e valorizada, pois somos o reflexo de nossos antepassados, nossos valores éticos, morais vêm principalmente dos nossos lares. Parabéns Paulo por sua família e pelo orgulho de ser um Ludovico. Assim como eu herdei o orgulho de ser Flores também pelos ensinamentos de meu velho e inesquecível pai.

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