Meu vestibular pra Direito

13 de Agosto de 2008, às 8:53h

por Paulo Ludovico*

pl1.jpgCerto dia, Matheus, um de meus três filhos (os outros dois são: Thaise e Thiago), quando ainda cursava Ciências Contábeis (hoje, ele já concluiu a graduação e até a pós-graduação), me disse: “Pai, acho que você deve cursar Direito”. No início, não o levei muito a sério e até pensei: “Eu, aos 47 anos de idade, estudar mais, pra que?” Mas, aos poucos, fui mudando o meu pensar e, incentivado pelo próprio Matheus, de início, e, depois, por todos lá em casa, resolvi fazer vestibular para o Curso de Direito. Ainda meio descrente, fiz a inscrição, no último minuto, da última hora, do último dia. Torci até para que um motivo “involuntário” qualquer impedisse essa inscrição.

Chegou o dia do vestibular. Novamente, quase não cheguei a tempo. Não sei se coincidência ou propositalmente. Foi eu entrar na escola e fecharem os portões. Parece até que estavam, só, me esperando. Lembrei-me da primeira vez em que fiz vestibular para Engenharia Civil, na UFBA, lá pelos idos de 1977. E hoje, como poderia concorrer com os candidatos mais jovens (cerca de 2 mil), recém saídos dos bancos do 2º Grau? Eu, que havia concluído o 3º ano, há mais de 30 anos. Não ser aprovado seria uma decepção, pra mim e pra minha família.

Fiquei numa sala onde o mais velho era eu. Aliás, o velho era eu. Senti, na pele, o significado e a força da expressão “um peixe fora d’água”. Além de mim, o de mais idade teria, no máximo, 25 anos. “Acho que ele não tem nem 15 anos”, pensei na hora, num desconcerto total, o que me fazia sentir como se tivesse 80. Cheguei a imaginar que deveria haver também cota para “idosos”. Depois de distribuídas as provas, sumiu tudo que estava em minha volta. Era eu sozinho. Só enxergava as questões e o gabarito a ser marcado. Que idoso, que nada, senti o que era ter, novamente, 20 anos de idade. Ser ou não “peixe fora d’água”, era o que menos importava, mesmo porque passei a me achar o mais novo da sala. Viajei nas idéias de minha Redação. Parágrafo após parágrafo, o difícil, mesmo, foi parar de escrever. As questões de Biologia, Química, Física, História e Geografia pareciam sonetos que me levavam de volta à minha juventude. Fazendo a prova, estimulado pelas rimas bem metrificadas e exatas da Matemática, senti de novo nas aulas de Edna (de saudosa memória) e Edméia do São Tarcísio, até hoje, senhoras de minhas mais queridas lembranças escolares. Naquelas quatro horas de prova, conversei com cada um de meus antigos professores. Todos bem vivos em cada esquina de minhas memórias: Nilda Figueira, Dona Celina Cordeiro, Fernando Eleodoro, Alzair (irmã de Jânio Freitas), Margarida Bacelar, Durval Menezes, Itamar Assis, Denise Aragão, Stela Bacelar, Ubirajara Cairo, Norilde, Helena Glass, entre tantos outros que contribuíram para a minha construção de mim mesmo. Como agradeço a todos eles. Faço minhas as palavras de Albert Einstein, depois de um elogio: “Grandes são os mestres, nos ombros dos quais me elevei”.

No dia seguinte (tal qual naquele passado de meus 18 anos, quando fui aprovado no vestibular de Engenharia da UFBA), fui conferir o gabarito. Pelo número de acertos (fechei a prova de Matemática), tinha grande chance de ser classificado. Não havia como saber sobre o resultado da Redação, o que me deixou mais ansioso, ainda que tentasse disfarçar. Quatro ou cinco dias depois, não me lembro bem, saiu o resultado. Aprovado. De novo estava eu, mais de 30 anos depois, outra vez na escola, dessa vez, como estudante.

Agora, passados quase 10 Semestres, estou quase me formando. Como foi o curso? Bem, isso aí já é outra história. Fica pra outro dia.

*Paulo Ludovico é estudantes de Direito 

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4 comentários ↓

  • 1 Alberto Oliveira // 13 de Agosto de 2008 às 16:22

    A experiência pessoal do narrador, aliada a uma escrita fluída e agradável, nos traz peças realmente prazerosas de serem lidas. Crônica muito boa

  • 2 rgs // 14 de Agosto de 2008 às 10:55

    Muito boa!.

  • 3 Carla Lopes // 20 de Agosto de 2008 às 14:19

    Adorei, Paulo.

  • 4 cintia // 9 de Setembro de 2008 às 19:07

    deve que na hora vc ficou muito apurado
    mais quando a gente esta com deus tudo se resolve fico muito feliz por vc
    a continue fazer vetebular e acreditando em seus sonhes nao emporta a idade oq emporta e capaçidade siga os consenhos dos seus filhos

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