Conforme transmissão radiofônica da partida Vitória da Conquista 3, Camaçari 2, nesta quinta feira (26/02/09), uma coisa ficou clara: Enquanto o juiz não encerrar a peleja o atleta não deve se desligar do jogo. Na partida entre os dois times, em determinado momento o que pareceu é que alguns atletas do Bode conquistense esqueceram a lição deixada pelo saudoso Vicente Matheus: “O jogo só termina quando acaba”. Bastou colocar 3 bolas no filó do adversário para que baixasse aquele espírito de acomodação que tanto irrita o torcedor brasileiro. Estávamos ganhando de 3 a 1, e isso, na concepção de alguns dos nossos atletas, já era suficiente para não nos empenharmos mais. O Camaçari que aparentemente estava morto sentiu o comodismo do nosso time, reagiu e quase engrossa uma partida que estava em nossas mãos. Isso aconteceu ontem, mas se o torcedor fizer uma retrospectiva, vai encontrar na história do futebol brasileiro um número gigantesco de partidas que eram fáceis e que de repente se transformaram em um deus nos acuda. Na Copa de 1994, por exemplo, o jogo Brasil e Holanda foi aquele sufoco. Aos vinte e poucos minutos do primeiro tempo já estávamos ganhando de 2 a Zero. A Holanda foi crescendo, crescendo e quase nos aplica uma desdita. Ao final do jogo o comentarista Juca Kfouri (TV Globo, à época) sintetizou com uma das mais felizes conclusões que já ouvi dentro do futebol: “Foi o jogo fácil mais difícil que eu já vi em minha vida”. O de ontem esteve à beira desse comentário.
Há muito insisto para que os nossos atletas de futebol façam um estágio junto aos craques norte americanos do basquetebol. Lá eles verão como é que se concentra em uma disputa esportiva. Os cabôco não querem nem saber de conversa. Não se desligam do jogo nem quando recebem a notícia do nascimento de um filho. Enquanto a bola estiver rolando a única preocupação é meter bolas na cesta adversária. E tome-lhe bola e tome-lhe bola. Ainda que a partida esteja de 400 a 120, os negões da NBA continuam empurrando a bola. Uma vez perguntaram a Magic Johnson por que tanta fúria. Ele disse: “Prá eles aprenderem”. É isso aí. Se o time do Chicago Bulls vier jogar contra a seleção de basquete da Barra do Choça, podem ter certeza, enquanto o ponteiro do relógio estiver girando eles estarão metendo bolas [inda bem que é só as de basquete] no time da Barra.
Nossos atletas precisam ser mais profissionais. Esse negócio de perder o apetite pelo jogo, fazer corpo mole, desinteressar-se por achar que a partida já está definida, é papo furado. Vamos meter gol. Torcida gosta de ver gol. O drible é bonito, faz parte do espetáculo, consagra a técnica do atleta, mas é o gol, somente o gol, o elemento que consagra toda a equipe. Time que não faz gol é time chinfrim. Não ganha e não promove alegria.
Daqui a uns dias iremos jogar em Salvador. Não importa se o time do Bahia foi campeão brasileiro, foi campeão baiano dezenas de vezes e tem mais tradição. O que importa na história é o momento da partida. Não se admite que um profissional entre em campo considerando que o favorito é o outro time. No futebol inventaram essa bobagem. Acho isso um complexo de inferioridade inaceitável. Como é que eu vou concorrer a alguma coisa e vou logo dizendo que o favorito é o meu concorrente. Isso é coisa de gente que não tem personalidade. Claro que muitos advogam que falam isso para tentar passar para “o outro” a responsabilidade do êxito. Ora se existe esse propósito, o sujeito que propõe essa idiotice acumula outro defeito: o de hipócrita ou fariseu, como quiserem.
É certo que não podemos nem devemos ser arrogantes, tampouco auto-suficientes. Isso é feio em qualquer atividade humana. Porém não devemos camuflar nossas fraquezas atribuindo ao “outro” o dever da vitória. Recentemente o Flamengo, o glorioso mengão, enfrentou o time do Resende e se deu mal. Quando abriu os olhos, sua camisa, sua tradição, seus campeonatos cariocas, nacional e mundial foram para o beleléu. Bem feito. Entrou em campo todo cheio de máscara e o time do Resende [equipe modesta do interior] aplicou-lhe, como diz meu amigo Mac Donald “um sapeca Iaiá caprichado” Tão forte que dói até hoje na alma do urubu. E como dói…
Negócio é o seguinte. Vamos prestar atenção no jogo [ele só termina quando acaba]. Vamos expulsar os complexos de inferioridade e vamos debelar para sempre o espírito de comodismo. É hora de refazer nosso entendimento sobre concentração. Ela não é apenas uma etapa que antecede a uma partida de futebol. Concentração é um estado de espírito por intermédio da qual o sujeito incorpora no físico e na alma a advertência única sobre aquilo que está fazendo. Fazer Futebol é como fazer amor. “Tudo pára quando a gente faz amor” cantou Roberto Carlos. Na hora do jogo, como ocorre quando a gente faz amor: “só se deve pensar naquilo”. Façam isso, e as coisas melhorarão muito. O jogo só termina quando acaba. Um abraço cordial e até a próxima.
Paulo Pires
Professor UESB-FAINOR.








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