Paulo Pires (*)
Há poucos dias passando pela Praça da Bandeira encontrei um velho amigo de infância. Avistei-o à distância e, portanto, não consegui identificá-lo de imediato. Só quando nos aproximamos é que dei conta se tratar de alguém conhecido. Ele sorriu e eu também. Confesso que notei em sua feição certa dose de melancolia. Outrora deram a esse estado de espírito o nome sinestésico de doce amargura. Sua expressão facial denunciava alguém que está passando por alguma dificuldade. Inda bem que mesmo antes de Freud, nós, humanos, adquirimos a percepção de constatar quando uma pessoa está ou não feliz. É sintomático. Ultimamente tenho exercitado meus dotes de psicólogo [de boteco], portanto, de forma indiscreta, procurei saber do amigo o que estava lhe acontecendo. Ele me assuntou, olhou pros lados, deu uma parada, um suspiro e [acho eu] acabou concluindo que seria melhor desabafar. Acho que lhe inspirei confiança por causa das boas relações sócio-pessoais que tivemos nos velhos tempos. Assim que ele resolveu se abrir comecei a me achar um “psicólogo” de sucesso.
Meu interlocutor confessou estar vivendo um verdadeiro inferno. Sua mulher não lhe entende, seus filhos idem e o mundo prá ele tá uma cocô. Na rua, nem se conta! Os cartões de crédito estão estourados, conta bancária também; água, luz e telefone atrasados. Após ouvi-lo disse-lhe para não se desesperar. Todo mundo passa por maus momentos. Principalmente agora que o mundo está em crise. Informei-lhe sobre a quebradeira de grandes empresas internacionais (coisa que ele ouviu me tachando de idiota) e mais um montão de coisas ruins. Por uns momentos verifiquei que ele queria mesmo é que eu lhe apontasse uma saída. Perguntei-lhe se ainda bebia (pelo bafo, nem era preciso). Ele disse que sim. Mas ultimamente só em casa. Convidei-o para irmos a um boteco de outro velho amigo, mas ele se recusou (depois fiquei sabendo que ele deixou um “prego” por lá).
Fazendo um balanço da conversa concluí que a situação desse amigo não é lá muito boa. Recomendei-lhe disciplina na vida e cautela nas compras, para sair do sufoco. Ao final, pediu-me desculpas, e me pediu “emprestado” um graninha. Como eu estava apenas com uma de 20 e outra de 10, passei-lhe os trinta contos e dei o fora. Que conversinha cara! Sou o único psicólogo do mundo que paga aos seus pacientes. Bem feito! Quem mandou não se profissionalizar?
Continuei caminhando e mais adiante encontrei outro amigo. Este me pareceu totalmente equilibrado. Falei-lhe do anterior (também seu amigo) e ele me disse que o cidadão realmente não está nada bem. Pior: Ultimamente deu prá se exceder no álcool que a própria “marvada” se irrita. Fala besteira, desconhece os amigos, chega em casa meio revoltado e se acha senhor da razão em tudo.
Não sei por que, mas a tal da “pinga” promove alterações tão radicais em certas pessoas que às vezes fica difícil identificar se aquele é o mesmo sujeito que conhecemos sóbrio. Não foi à toa que os latinos criaram a expressão “in vino veritas”. Numa tradução de boteco, o significado dessa expressão é: “meta cachaça no rabo do cabôco, e verás quem ele é”. O segundo amigo não foi nada complacente com o primeiro. Fêz uma resenha extensa dos acontecimentos envolvendo o anterior que mal pude acreditar. Meu amigo do primeiro encontro, coitado, tá todo enrolado. Pior, é que ao invés de buscar soluções para a vida, está é se enterrando na pinga.
Aqui em Conquista já presenciei tantas maluquices dos chamados “cachaça ruim”, que hoje evito estar onde eles aparecem. E olhe que eu mesmo já cometi excessos etílicos, os quais nem gosto de lembrar. Mas, pelo que me consta, mesmo quando fiquei chumbado procurei manter a linha. Nunca desacatei ninguém e nem criei mal estar nos ambientes onde vi a roseira balançar. Advirto a todos que o bebum, mesmo quando não faz nada, já incomoda. Uma vez estava no Boca de Forno, naquela época ao lado do Superlar, e enchi o tubo. Só quando me levantei dei é que constatei que havia passado do meridiano de Greenwich. Como diz Bozó: Rapaz……!
Beber umas, em certas ocasiões, não é ruim. Ruim mesmo é o sujeito perder a linha. Portanto, meu caro, se você é do tipo que vira “cachaça ruim”, cuidado! Logo você será tachado de mau caráter. Seja um pinguço agulha [daquelas que não perdem a linha]. Beba com moderação e não dirija. Fale o mínimo possível e não pense que todo mundo é seu amigo. Um abraço cordial e até a próxima.
(*) Professor UESB-FAINOR





