por Paulo Pires*
Calma pessoal. Se alguém aí estiver pensando que vou falar de mim ou de Judson Almeida (apresentador da TV Sudoeste), não é nada disso! O gato a que me refiro vive em uma residência na aludida Rua e tem sido objeto das mais variadas observações e análise. Observações essas, convem assinalar, de ordem comportamental e psicológica. Gato, todo mundo sabe, é um tremendo cara de pau. É um dos animais mais manhosos que existe. O cara não quer nada com a hora do Brasil. Vive boa parte do tempo dormindo e quando acorda, inicia uma miadeira reinvidicatória, exigindo dos donos da casa, comida. De preferência muita e de boa qualidade. Depois bebe água, leite e cai de novo no sono. Antes, porém, procura dos donos da casa um pouco de afago. É… Isso mesmo! Além das mordomias materiais, o bichano procura o colo de uma alguém da casa para receber carinhos e mais carinhos e só depois disso, dormir.
Nunca vi bicho mais cara de pau. Não é a toda que criaram a expressão “fulano é igual a gato de hotel, é comendo e miando”. Uma das principais observações feitas sobre esse bicho é que ele é extremamente egoísta. O sacana só pensa nele. Em sua cabeça funciona o seguinte raciocínio: “Eu sou o hóspede do mundo”. O seu egoísmo é constrangedor. Os analistas desses felinos descobriram, por exemplo, que eles não gostam do dono da casa. Eles gostam mesmo é da casa. Isto é, das regalias que lhes são oferecidas e que estão no contexto dos seus sonhos de consumo. Ah, bicho disgramado! Ah, bicho filho da…. mãe!
Mas saindo do geral e “filmando” especificamente o indivíduo, passo a relatar o seguinte: O nome do gato em questão é Simba. Deram-lhe o nome, acho que em homenagem ao grande marujo Simbad. Se foi em referência ao heróico aventureiro, posso dizer que a pessoa se equivocou. Uma vez que o personagem das histórias de Sherazade difere muito desse gato da Rua dos Fonsecas. O marujo era um batalhador incansável, enquanto esse filho da mãe da Rua dos Fonsecas é um preguiçoso de marca maior. Durante quase todo o dia dorme. Moscas pousam no seu (dele) bigode e ele não “nem aí”. Tem horas que parece até morto, de tanta preguiça. E ultimamente está com um jeito de dormir impressionante: Põe a pata dianteira debaixo da cabeça, as patas traseiras bem esticadas e patinha esquerda sobre o coração. Parece até gente, o sacana.
Mas a maior de todas é o que acabamos de descobrir. Por volta das 8 da noite, frequentemente ele sai da casa, atravessa a Rua, sobe o muro da casa de nosso amigo Jorge Brito (ex-presidente da AABB) e vai para um furdúncio na Rua Presidente Médici (ex-presidente dos tempos de chumbo). Tenho certeza de que nosso personagem – o gato – se soubesse quem foi o presidente Médici não apareceria numa rua que tem o nome do ex-general. Mas como ele é muito novo e o seu conhecimento de História é ainda elementar, o perdoamos pela ignorância.
Simba descobriu uma gataiada na Rua Presidente Médici (esta fica no fundo da Rua dos Fonsecas ou fundo do Clube Social, como queiram). Alguns amigos da rua do general me disseram que é um cabaré da zorra quando Simba chega. Ele é novo, bonito, limpo, só come ração (não há quem o faça comer um rato ou outro tipo de comida, se não forem aquelas rações com nomes em inglês). Ele chega por volta das 8 e aí a gataiada toda estremece. Disseram-me que as gatas ficam loucas quando o galego chega (a pele do bicho é branca com amarelo pêssego). Ele se sente o tal. Em sua cabeça está claro que é um cara diferenciado. Ele não é um gato qualquer. Ele não é daqueles que vive o tempo inteiro sem saber qual vai ser a refeição seguinte. A coisa com ele funciona diferente. Só come rações misturadas de frango, fígado de galinha e iscas de peru. È isso aí. O cara é sofisticado. Come melhor que eu. Depois dos alimentos, tem direito a uma terrina com água limpinha. Pela manhã recebe sua tigelinha de leite morno para se recuperar das peripécias que fez durante a noite.
Seu retorno da boemia se dá por volta das 7 da manhã. Quando vai se aproximando esse horário, ele salta os muros, caminha lentamente pela grama da casa, dá uma miada e observa se já colocaram o seu leite e a ração. Depois de se certificar de que tudo está em ordem, bebe um pouco de leite, cai em cima do prato de ração e depois de encher o bucho, bebe mais leite. Sentindo-se farto, escolhe um tapete que tem a disposição, deita-se, fecha os olhos e só os abre por volta de meio dia, quando começa o vai e vem dentro e fora da casa. É um vidão da zorra! Ainda não tive uma conversa mais séria com ele, mas estou curioso para saber qual a sua impressão sobre a vida. De minha parte, posso dizer o seguinte: Preciso tomar uma aula com aquele gato. Talvez seja ele quem vai me ensinar “como vencer na vida sem fazer esforço”. Confesso: Acho que estou com inveja do Gato. Um abraço cordial e até a próxima.
(*) Professor UESB-FAINOR





