Por Anselmo Chaves
Querido vício,
Agora, de cigarro aceso, quero te agradecer de coração, e também de pulmão cheio de alcatrão e nicotina, por todo esse tempo de companhia e sina, desde o primeiro dia que te botei na minha boca virgem e senti a tua louca vertigem, passando por todos os momentos, seja pela mais grave tristeza cheia de padecimentos, seja pela mais leve alegria plena de contentamentos, até, por fim, chegar nesse dia fatal em que dou a ti um ponto final. Este é meu último cigarro e quero dizer aos ouvidos meus, e sem nenhum escarro, que chegou a hora de dizer a ti, que tanto me encanta, pois assumo esse meu amor com o pigarro do fumo na garganta, adeus.
Escrevo essa carta com muito sofrimento mas faço isso sem nenhum lamento pois foi contigo mesmo que eu aprendi, observando a dança das formas variantes do fluido fio dessa tua fumaça, que tudo passa por transformação de maneira que a única coisa da vida que é constante é a própria mudança e, portanto, se no fundo do meu coração, eu amo a variação de tudo no mundo, eu não posso querer ser pra sempre o mesmo (:) fumante.
Não pense que fui levado pelas estatísticas das ciências experimentais, e muito menos por aquelas besteiras das filosofias místicas transcendentais, nem ainda pelas tais advertências postas nas costas das tuas carteiras pelo Ministério da Saúde e que me fazem sempre pensar na perspectiva horrível da impotência e do ataúde, mas pelo meu próprio convívio assíduo contigo que, se me traz prazer e, nas horas difíceis, algum alívio e serenidade, produz, contudo, como resíduo, uma ansiedade que me cose à necessidade de mais uma dose e, a cada centavo gasto contigo, ao invés de me fazer teu amigo, acaba me obrigando a ser o teu mais casto escravo. Portanto, se entre nós não há mais nenhuma liberdade, sendo eu a tua vítima, a saudade causada pela tua ausência é muito mais sinal de minha dependência do que de uma amizade legítima.
E mesmo que eu teima dizendo que não é preciso ser gênio pra perceber que todos dependemos todo dia pelo menos do oxigênio que nos queima pra dar energia com a sua combustão, concluindo, então, que nada faz bem nesse itinerário do existir, não seria esse um mal desnecessário de cujo bem eu poderia prescindir?
Durante algum tempo sentirei a tua falta, principalmente depois do sexo, do café, da comida e da cerveja mas, veja, já não faz mais nenhum nexo amar a quem não consegue me amar sem destruir a minha tão alta fé na vida.
Dou agora o meu derradeiro trago de teu perfume que envenena e faz em mim tanto estrago, deixando-me doente, e, assim, imerso nesse hálito de teu viciante cheiro, eu termino essa missiva feita a verso com um viva! dizendo que eu fumaria tudo o que eu fumei antes novamente e, novamente, te apagaria e, sem nenhuma pena ou compaixão, te abandonaria na fria solidão deste cinzeiro.
Anselmo Chaves
Brumado-Ba, 13 de setembro de 2004








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1 comentário ↓
1 Suzana // 2 de março de 2010 às 16:57
Adorei.. o vocabulário, a fluência dos versos, tudo!! Principalmente, o conteúdo. Este irei imprimir (e colar no espelho!!).
Sds,
Suzana Cruz.
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