por Paulo Pires
O diretor cinematográfico João Daniel Tikhimiroff parece que ouviu minhas preces e fez um filme sobre o lendário capoeirista Besouro Mangangá. Pela sinopse e algumas cenas que assisti acho que daí dar pé. O filme apresenta takes muito bonitos e seqüências de imagens bem ao nível do Clã das Adagas Voadoras e outros belos filmes do Kung Fu.
Sempre achei que nunca havíamos explorado corretamente nosso patrimônio imaterial cultural. Os japoneses e chineses, ao contrário; transformaram o Kung Fu em uma excelente fonte de renda. Os argentinos, por seu lado, souberam explorar o Tango e a dança dos hermanos acabou virando produto de exportação. Nós, não. Nunca tivemos competência para colocar nossas manifestações culturais como produto de geração de renda. Vejam o caso do Forró. Ainda hoje não conseguimos exportá-lo devidamente. Por incrível que pareça só depois que o ritmo ganhou espaço em danceterias de São Paulo e Rio de Janeiro, o pessoal mais jovem aderiu à dança e até turistas estrangeiros que vem ao Brasil, estão adorando balançar o esqueleto debaixo do som da sanfona, do triângulo e da zabumba. Claro que durante muito tempo o preconceito “abafou” o ritmo levado por Gonzaga para o Sudeste e agora, recentemente, os jovens daquela região romperam com o complexo de colonialismo e botaram o forró na onda do dancing. As pessoas estão adorando.
Mas voltando ao Besouro, creio que o diretor João Daniel acertou em cheio. A capoeira, em que pese o grande preconceito porque passou, é uma manifestação cultural muito vinculada às nossas raízes, à nossa identidade. Tem tudo a ver. O que ocorreu com ela foi o mesmo que aconteceu com o samba. Só que o Samba, por ordem e graça de fortes personalidades de nossa cultura, conseguiu romper com os grilhões do preconceito e por volta de 1930, mandou nossas elites macaqueadoras pocar nos inferno! É isso mesmo, durante séculos nossa elite macaca – expressão que tomo por empréstimo a Mário de Andrade – impôs ao povo brasileiro uma Ordem de Serviço, ou seja, um Cardápio de Produtos Culturais que ela, Elite, julgava como sendo a que o povo deveria digerir e adotar. Mas a sociedade, que não é besta, mandou-a às favas e graças a força do Povo e a grandeza de Deus, o Brasil ostenta um Mix Cultural que faz inveja a todo o Mundo.
Quem chega hoje à Rússia vai encontrar gente dançando forró e cantando músicas de Chico Buarque como produtos quase nacionais. No Japão a Bossa Nova é uma febre que os nipônicos deliciam. Na França somos adorados. Na Itália, nossos músicos são amados. Na Inglaterra, o compositor Marcos Valle até pouco tempo era pôster no Aeroporto de Londres. Em resumo, nossa grande música, nossos grandes músicos, atores e atrizes são respeitadíssimos por onde são vistos e ouvidos. Temos o dever de reconhecer que a TV Globo é grande responsável pela expansão de admiração que nossos artistas provocam no mundo. A atriz Lucélia Santos na China é tratada como Greta Garbo. Milionário e Zé Rico nesse mesmo país, graças a um belo filme de Nelson Pereira dos Santos [A Estrada da Vida] vendem mais discos do que chuchu na feira. Os nossos grandes músicos são admiradíssimos. Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti, Sivuca [este durante anos arranjador dos Jackson's Five], Tom Jobim, Edu Lobo, Milton Nascimento, Elomar e tantos outros gozam de um prestígio excepcional no Exterior. Elomar foi consagrado nos anos de 1980 [não lembro bem a data] pela crítica alemã como um gênio [e é mesmo!] e ainda por cima levou o prêmio de melhor disco de artista estrangeiro. O Bode saiu de lá todo cheio. Claro que não deixou de ver e rever um monte de curiosidades e trabalhos do gênio J. S. Bach.
E o Besouro, hein, quem era esse personagem? Um dos relatos sobre ele [no Google] diz mais ou menos o seguinte: “Manoel Henrique, 1897-1924, apelidado Besouro Mangangá ou Besouro Cordão de Ouro foi um lendário capoeirista da região de Santo Amaro, Bahia. Muitos e grandiosos feitos lhe são atribuidos. Diziam que tinha o “corpo fechado”, que balas e punhais não podiam feri-lo. Porém, mesmo as circunstâncias da sua morte são contraditorias. Há versões de que foi num confronto com a polícia, e outras que foi na “trairagem”, num ataque de faca pelas costas. A palavra capoeirista assombrava homens e mulheres, mas o velho escravo Tio Alípio nutria grande admiração pelo filho de João Grosso e Maria Haifa. Era o menino Manuel Henrique que, desde cedo aprendeu, com o Mestre Alípio, os segredos da Capoeira na Rua do Trapiche de Baixo, em Santo Amaro da Purificação, sendo batizado como Besouro Mangangá por causa da sua flexibilidade e facilidade de desaparecer quando a hora era para tal”.
Na década de 1960, o monumental violonista brasileiro Baden Powell de Aquino se juntou a Paulo César Pinheiro [gênio das letras de nossa música popular] e compuseram um samba denominado Lapinha. Diz os versos iniciais do tema: “Quando eu morrer, me enterrem na Lapinha, calça, culote, paletó, almofadinha”. No final da letra aparece a homenagem ao grande capoeirista: “Adeus Bahia, zum, zum, zum, cordão de ouro, eu vou-me embora pois mataram o meu Besouro”. O samba, tocadíssimo à época, é simplesmente genial e Elis Regina arrebentou!
Garanto a vocês: O filme tem tudo para fazer sucesso. É cheio de efeitos especiais e pirotecnias. O negão voa bonito com os pés nos peitos dos adversários. O diretor J. Daniel foi espertissimo. Trouxe dos Estados Unidos o mesmo cara responsável pelas bravatas dos atores dos filmes de Kung Fu. Ficou sensacional. Não conto o resto para vocês ficarem com a obrigação de ir ao cinema. Há anos não vejo um filme. Acho que dessa vez, verei. “Adeus Bahia, zum, zum, zum, cordão de ouro, eu vou-me embora pois mataram o meu Besouro”.






como um capoeira fanatico que sou
o filme de besouro mangangá con ta quase tuddo de besouro mas faltou o ensencial que é a falar sobre o nome dos outros dois demonios da capoeira que são candomblé e oxalá