As tragédias de Vitória da Conquista

9 de março de 2010, às 9:13h

 por Jeremias Macário

Ia falar da Poluição Visual em Vitória da Conquista e o destino do Cine Madrigal, mas a Chacina ou a Noite de Terror de 28 a 29 de janeiro no bairro Alto da Conquista que deixou 14 mortes, inclusive de adolescentes, me fez lembrar dos atos mais violentos na história da cidade e que ficaram até hoje sem solução e condenação dos culpados.

Antes mesmo da passagem do príncipe alemão Maximiliano pela Vila da Conquista, por volta de 1817, o desbravador da terra João Gonçalves da Costa já se queixava dos atos de violência de roubos, furtos e homicídios. Seu filho, Antônio Dias de Miranda, espécie de delegado, fazia diligências e pedia reforços de armas e homens ao presidente da Província da Bahia para controlar a situação.

Vamos deixar de fora as guerras entre os coronéis que resultaram em muitas mortes, destacando a Tragédia de Tamanduá (distrito de Campo Formoso) em 1895 que deixou 22 mortes da mesma família, tendo como protagonista o coronel Domingos Ferraz de Araújo. Foi uma carnificina. Já em 1918 aconteceu a luta entre Peduros e Meletes, envolvendo os poderosos Manoel Emiliano Moreira de Andrade e Fernandes de Oliveira Gugé.

De acordo com historiadores, entre 1916 e 1919 e até meados de 1930, a política em Conquista era violenta e os jagunços sempre estavam a postos para atender aos coronéis e matar sem piedade. O mais irônico é que Conquista já era conhecida como a Terra das Rosas. Tivemos também as rixas entre as famílias Gusmão e Ferraz. Nos anos 60 a cidade se desenvolveu com a chegada da Rio-Bahia (BR-116), trazendo progresso, , civilização, mudanças de mentalidade e renovação para a paz.

Mesmo assim, de tempos em tempos o povo de Vitória da Conquista é surpreendido com tragédias de violência e práticas criminosas cujos processos terminam sendo engavetados e esquecidos. São os chamados crimes insolúveis que “não dão em nada” no modo de dizer de grande parte da sociedade que perdeu a confiança nas instituições e autoridades constituídas, principalmente no nosso Brasil de hoje da impunidade.

A Tragédia do Natal, numa tarde de 1931, foi outro fato que abalou a cidade, deixando mortos o mecânico Vicente Calvacante de Albuquerque e o cabo Jerônimo Alves Sampaio. Tudo aconteceu na casa do sr. D´Artagnan de Melo Menezes. Ficaram ainda feridos o sargento Argemiro Couto, o soldado Bendito e o ex-soldado Malagueta. A briga teve início em um bar na rua da Muranga (Siqueira Campos) quando o mecânico desacatou o destacamento policial.

Para não ir muito longe, dentre muitos atos de violência, podemos citar a invasão da Santa Casa da Misericórdia, em 17 de agosto de 1968, quando soldados invadiram o hospital e mataram o preso Orlando Gomes Sampaio que se encontrava ferido a bala naquela casa de saúde. O fato começou em Tanhaçu onde o sargento José Secundino Costa e o soldado Manoel Correia foram mortos quando tentavam prender o criminoso Luiz Souza (o Luizinho). Quando o marginal estava sendo preso, Orlando, seu cunhado, decidiu defendê-lo e na luta alvejou mortalmente os policiais.

Ferido, Orlando foi levado, por interferência do capitão Camerino de Araújo, para a Santa Casa. Mesmo sob a custódia de seis soldados, no dia 17 de agosto, o hospital foi invadido por homens armados, tudo indicando ter sido uma trama da Polícia Militar. O prefeito da época era Fernando Spínola e o caso ficou até hoje sem ser esclarecido.

Só para citar os casos mais recentes, na década de 90 tivemos o assassinato do prefeito do município de Manoel Vitorino. O fato ocorreu em Conquista, se não me engano, no bairro Candeias, deixando viúva e filhos pequenos. Em 1993, mataram o dono do “Jornal do Estado”, João Alberto Ferreira Souto. Logo depois aconteceu o caso do marinheiro que apareceu morto na delegacia. Todos estes crimes foram engavetados ou nem existem mais como ocorrências de repercussão nacional.

Outros fatos marcantes, inclusive quando da época do delegado Feitosa, estão no roll dos crimes que ficaram sem resposta e punição dos verdadeiros culpados. Nesta década 2000 teve o assassinato da cobradora de ônibus e de mulheres que perderam a vida. A grande maioria dos bárbaros crimes foi largamente noticiada pela imprensa local, estadual e nacional, reforçando mais ainda a visão, muitas vezes distorcida, de que Conquista é uma cidade perigosa, violenta e de pistolagem.

A mais recente tragédia é a Chacina de Conquista, na noite de 28 de janeiro, quando um bandido atirou mortalmente no soldado Marcelo Márcio Lima que subia a paisana com seu colega o bairro Alto da Conquista. Como revide, soldados subiram a Serra do Periperi e exterminaram 14 pessoas, muitas delas, friamente.

Há 15 dias, uma força-tarefa do Ministério Público e Secretaria da Segurança Pública está em Conquista investigando os fatos. Até o momento os processos correm em sigilo, com poucas entrevistas esclarecedoras para a imprensa que tem se limitado aos registros das ações. Lamentavelmente, tomando como base os outros atos, boa parte da sociedade, descrente nas instituições, só comenta que “tudo vai dar em nada.”

Como já sabemos, até agora somente três ou quatro soldados foram encaminhados a Salvador e esperam um pronunciamento definitivo da Justiça. As notícias ficaram escassas na imprensa e quase ninguém fala mais no assunto que colocou Conquista mais uma vez nas manchetes como cidade violenta. Quando virá a resposta?

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1 comentário ↓

  • 1 PTista // 9 de março de 2010 às 18:23

    V. da Conquista,pelo visto seu destino é o TERROR!

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