Ricardo Marques*
Quando o Governo Municipal resolveu, há sete anos, criar o Projeto “É por isso que eu canto” talvez nem imaginasse o que vislumbramos claramente neste Natal da Cidade de 2011. Inicialmente era pra ser um mero concurso de “calouros”, uma forma de abrir espaço para que pessoas comuns com talento e afinação pudessem participar de um momento de integração e lazer. O “pequeno” projeto, porém, tem criado algo maior em nossa cidade: uma nova cena musical. Isso é pouco? Ao meu ver e minha percepção, não.
Todo movimento musical e cultural, no país e no mundo, começou com a concepção de uma “cena”. Talvez a palavra seja relativamente nova, mas consegue captar o sentido do que acontece de tempo em tempo como elemento catalisador de uma determinada geração, por exemplo. A palavra mais usada anteriormente era “movimento”. Podemos lembrar alguns: A semana de Arte Moderna de 22 inaugurou novas formas de pensar a arte no Brasil. O Tropicalismo trouxe elementos e perspectivas novas à arte brasileira na década de 60. O movimento da Bossa Nova mostrou o Brasil para o mundo, em meados de 50 e 60. Woodstock, o Cinema Novo, o manifesto Mangue Beat, a Jovem Guarda, o Dogma 95, e tantos e tantos outros foram fundamentais para construir uma consciência de inovação ou mesmo de revolução na sociedade de sua época.
O que podemos observar é que tais cenas não foram criadas individualmente, mas, sim, por um grupo de pessoas que, em determinado momento da nossa sociedade, comungavam pensamentos comuns capitaneados pelos anseios de sua geração. Na música, no cinema, no teatro e nas artes plásticas, por exemplo, os grandes nomes não surgiram isoladamente, mas dentro de um contexto. Tom Jobim não seria ele próprio se não fosse a Bossa Nova, mesmo entendendo que sua arte extrapola o movimento. Neste mesmo raciocínio, podemos observar que Gil e Caetano surgiram do pensamento coletivo da Tropicália. Na década de 80, Renato Russo e Cazuza não surgiriam se não fosse o movimento dos rock brasileiro anos 80. Na poesia, não teríamos Drummond, Vinícius e tantos outros se estes não estivessem integrados a um pensamento coletivo, a um movimento que delineasse o princípio de seus pensamentos.
Nos anos 80, tivemos um grande movimento cultural/musical em Conquista proveniente do surgimento ou descoberta de Elomar aliado ao enorme sucesso conquistado pelos artistas mineiros do Clube da Esquina (Milton Nascimento, Lô Borges, Tavinho Moura, Beto Guedes, Flávio Venturini entre outros). Essa ebulição nacional, em um momento de abertura política, gerou uma enorme riqueza de novos artistas na cidade, principalmente aqueles que utilizaram a linguagem musical como forma de expressão.
O elemento integrador desses artistas foram os festivais realizados não só aqui como em todo o país. Neste momento, cantores conquistenses se consagraram e elevaram o nome da cidade nestes diversos festivais. Deste movimento coletivo surgiram Papalo Monteiro, Evandro Correia, Paulo Macedo, Xangai, Dirlei Bomfim, Gutemberg Vieira, e tantos e tantos outros que se tornaram conhecidos além dos limites territoriais locais. Essa geração avançou durante os anos noventa, surgindo mais e mais artistas e construindo uma cultura musical local ainda muito forte nos dias de hoje. Hoje, nomes como João Omar, Carlos Porto e o Maestro Ricardo Castro mostram a força criativa do conquistense.
Mas Conquista, na música, sempre teve outros movimentos fortes, como, por exemplo, o da música baiana, do forró, do rock e até mesmo do Punk. Movimentos que geraram artistas importantes e consagraram a nossa cidade como uma das terras da cultura e da música no estado da Bahia. Justo citar três produtores culturais que muito fizeram por isso em nossa cidade: Pedro Massinha na década de 80, Paulo Mascena a partir da década de 90 (considerado uma das personalidades culturais da Bahia este ano) e o jovem Gilmar Dantas do Coletivo Suíça Baiana, que na década atual inaugurou novos conceitos de produção cultural na cidade.
Voltando ao “É Por isso que eu canto”, tirado de uma das mais conhecidas letras de Caetano Veloso, o concurso em suas edições surpreende a cada ano na revelação de novos talentos que estão, inconscientemente, construindo uma nova cena musical na cidade. Este ano pudemos ver no palco principal do Natal da Cidade excelentes artistas saídos do concurso e já realizando shows profissionais. Inclusive alguns dos melhores shows realizados na Praça Barão do Rio Branco foram protagonizados por estes novos artistas. Destaque para as apresentações de Gecy Brito, Mariane Macedo e Daiane Macário. Nomes já reconhecidos da nossa cena como Geslaney e Iara e Alisson Menezes parecem ter percebido a consolidação dessa cena musical na cidade e são hoje alguns dos principais “gurus” dessa turma nova que tem buscado um lugar ao Sol a partir das influências regionais e da música popular brasileira, construindo algo novo que ainda vem por aí.
São muitos nomes, mas não poderia deixar de citar algumas referências dessa turma nova: Achiles Neto, Tereza Rachel, Suze Dias, Daniel Oliveira e Suzana Rebouças, esta última uma excelente intérprete de apenas quatorze anos de idade. São muito mais. Gente que tem estudado firmemente a interpretação, mas que já surpreende começando a produzir como grandes artistas. Todos eles mal chegaram aos vinte anos ou sequer alcançaram duas décadas de vida, mas já conseguem produzir música de respeito, mesmo entre os veteranos. Exemplo disso, é o caso de Achiles que já é reconhecido como um grande compositor da nova geração.
A cena está surgindo e ela precisa de espaço. O Concurso da Prefeitura Municipal serviu de alavancador, mas precisamos agora de outras apostas. Temos na cidade três emissoras de televisão local (Sudoeste, Record e UESB). E lembro o quanto a televisão foi importante para impulsionar artistas como Evandro Correia e Lima Júnior. Inclusive fazendo destes artistas reconhecidos em vários outros estados. Nossas rádios já tocaram em outros tempos os nossos artistas locais em suas programações diárias em horários de grande apelo comercial. Isso deve voltar! Inclusive, os nossos empresários, principais patrocinadores destes programas, devem provocar e cobrar dessas emissoras este tipo de iniciativa, que hoje é encampada, justiça seja feita, pela Rádio UESB.
Os nossos meios de comunicação local podem pensar, sim, no incentivo ao músico local, quem sabe um grande festival com rádio e tevê? Temos grandes estúdios, grandes músicos, grandes compositores, bons espaços, um governo municipal que investe em cultura e uma consciência coletiva, alimentando um movimento, uma cena que precisa apenas de mais alguns impulsos para se tornar forte e relevante, não só para nossa cidade e região, mas para todo o país! Por que não? Se isso não acontecer vamos ter apenas, de tempo em tempo, algum artista conquistense sortudo que consegue poucos e inconsistentes minutos de sucesso em programas televisivos no estilo reality show. Um Feliz e Musical 2012 a todos!
*Ricardo Marques é administrador, Mestrado em Meio Ambiente, Músico e atualmente exerce o mandato de Vice Prefeito de Vitória da Conquista, Bahia.





